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Grandes Sons

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Rock In Rio, Dia 4: Arcade on fire

Ao quarto dia o Rock in Rio mudou de figurino musical e voltou-se para o alternativo. Desafiou um público pouco dado aos ares do Parque da Bela Vista e arriscou apresentar nomes que não costumam arrastar multidões da dimensão que o Festival pretende. Resultado: foi o dia de menor afluência ao recinto e muitos fãs de Arcade Fire «contrariados» num espaço que não apreciam. Para a história fica a grande revelação em palco chamada Lorde e novo bom concerto dos canadianos em Portugal.

 

Vale a pena voltar atrás no tempo para falarmos deste penúltimo dia de Rock in Rio. Quando foi anunciado o cabeça de cartaz para esta noite as reacções não se fizeram esperar nas redes sociais. A organização resolveu desafiar um publico que desdenha o conceito do festival e mostrar argumentos de peso aos outros grandes festivais locais que, com certeza, fariam as delicias dos seus frequentadores anunciando uns Arcade Fire.

 

O dilema estava instalado na comunidade de gosto musical mais alternativo, chamemos-lhe assim. Por outro lado os Arcade Fire já há muito que romperam as fronteiras do território indie dos tempos de «Funeral» editado em 2004. Não sendo propriamente uma banda mainstream já chegam a um público muito diversificado e a fama de darem excelentes concertos nunca foi defraudada nas anteriores passagens por cá, do Minho ao Meco sairam sempre com mais devotos.

 

A história desta passagem dos Arcade Fire por Lisboa começa na véspera com Win Butler a juntar o seu nome à lista de famosos que nas últimas semanas tem colocado Lisboa em estado graça aos olhos do mundo. O vocalista foi encontrado na noite lisboeta e rapidamente foi adoptado por um grupo de noctívagos que o levaram a meter discos no Incógnito, conhecida discoteca lisboeta. A empatia com os amigos locais foi tão grande que Butler convidou-os para a festa na Bela Vista com passes de backstage que deu direito a entrarem em palco desfilando com as cabeçudas figuras da banda, além de terem entrado em acção com uma introdução portuguesa feita por um dos companheiros da noite anterior. 

 

De tarde falámos com Pedro Alves, foi ele que teve a honra de anunciar a banda, que nos contou que só um acaso louco como este de acabar a conviver com uma das suas bandas preferidas o faria ir parar ao Rock in Rio onde nunca tinha estado tal como o grupo de amigos e amigas que estavam com ele a ver Wild Beasts. Não terão saído do recinto com má impressão do evento já que viram os Arcade Fire em grande forma.

A organização fala em 47 mil pessoas mas pareceram-nos menos. Nunca se circulou tão à vontade no parque e não foi nada complicado arranjar um bom local para ver os concertos no palco mundo. 

 

Entrámos no mês de Junho com os Arcade Fire a provarem todos os créditos que fazem deles uma das melhores bandas em palco. Actualmente é dificil dizer o nome de uma banda mais empolgante para ver ao vivo, obviamente tirando os grupos de nível lendário como os Rolling Stones. 

Os canadianos conquistaram o seu espaço com actuações energéticas onde mais de uma dezena de músicos se diverte entretendo o público, trocam de instrumentos, saltam de posição e vão construindo a cada disco que editam alinhamentos cada vez mais ricos e consistentes. Vão em crescendo sem nunca mostrarem fraquezas e ao mesmo tempo aparentam não ter muito mais ambições do que ser isto mesmo que vimos no Rock in Rio. Querem ser uma banda que garante um tempo bem passado a quem arrisca (o verbo desta vez faz mais sentido que nunca) ir vê-los, não querem ser a maior banda do mundo, com os melhores concertos de sempre. Não nos parece que queiram subir muito mais na escala. 

Claro que assinaram um dos melhores concertos desta edição do festival e adaptaram-se tão bem ao espaço como tinham feito em todas as passagens anteriores por Portugal. Não terão tido todos os seus devotos portugueses na plateia mas o público recebeu-os de braços abertos e gargantas afinadas, nem uma tocha acesa faltou! O alinhamento foi equilibrado revisitando «Funeral», «Neon Bible», «The Suburbs» até ao recente duplo álbum «Reflektor», tocaram 21 canções terminando em apoteose com «Wake Up». Ao som de «Here Comes The Nigh Time» houve os tais cabeçudos em palco, um deles era Lorde a quem também «roubaram» um pouco de «Royals» no arranque de «Normal Person».

 

Falemos agora de Lorde. Ella Marija Lani Yelich-O'Connor tem 17 anos, vem da Nova Zelândia e surpreendeu o mundo com o single «Royals». David Bowie viu nela um futuro brilhante, nas entregas de prémios mais famosos do mundo da música tem sido atracção e deixa-nos a todos na dúvida. Será só uma fugaz passagem pela fama, haverá vida além de «Royals». Pois as dúvidas foram dissipadas no Parque da Bela Vista. Lorde arrancou para um concerto surpreendentemente seguro e convincente. Defende «Pure Heroin» com garra, impõe a sua lei e arrebata toda a plateia para a sua causa. Uma das maiores revelações do Rock in Rio. O regresso ao nosso país não deve tardar.

 

Também os ingleses Wild Beasts aproveitaram da melhor maneira a convocatória e corresponderam com um belo concerto à maior enchente que vimos na zona do palco Vodafone. 

Antes já os portugueses Capitão Fausto tinham convencido uma plateia bem composta de que são um dos valores seguros da nossa música e provaram que este é um grande ano para eles. Disco bem recebido e concerto à altura. Estão bem lançados.

 

Um dos momentos mais aguardados desta 10ª edição do Rock in Rio envolvia músicos portugueses no palco principal a homenagearem António Variações. Começou muito bem com Gisela João a provar que é enorme em qualquer parte do mundo até na imensadão do palco mundo. «Quero é Viver», «Anjinho da Guarda» e «Adeus Que Me vou Embora», com a ajuda dos Linda Martini, foram os melhores momentos. Depois o factor surpresa nunca se deu bem com o factor emocional e as versões apresentadas pelos Linda Martini e Deolinda nunca chegaram a arrepiar. Mas foram interpretações interessantes quando comparadas com a chega ao palco de Rui Pregal da Cunha que chamou a si todo o protagonismo de uma projecto colectivo que pedia mais discrição e melhor voz. O Herói do Mar entusiasmou-se mas «Dar E Receber» ou «Erva Daninha» não mereciam ser mal tratadas daquela maneira. Ficou a boa intenção e os bons momentos de Gisela João e também Ana Bacalhau que se sentiu à vontade e cumpriu bem a sua parte em «O Corpo é que Paga» ou «É para amanhã».

 

Nest penúltimo dia ainda aconteceu uma estreia, Ed Sheeran tinha uma pequena legião de fãs nas primeiras filas que acolheram um cantor demasiado nervoso para tão grande cenário. Mostrou os seus singles radiofónicos, fez as delicias das jovens admiradores e não deixou marca no festival.

 

in Disco Digital

João Gonçalves

 

 

 

 

 

 

 

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