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Grandes Sons

Um pouco de música todos os dias. Ao vivo, em vídeo, discos, singles, notícias, fotos. Tudo à volta do rock e derivados.

Grandes Sons

Se Vais ao Nos Primavera Sound, Não Percas...

Pela 3ª vez o Porto recebe a sua manga do famoso Primavera Sound com sede em Barcelona. Como sempre entre uma cidade e outra caem alguns nomes que seriam muito bem recebidos por cá , desde logo com os Nine Inch Nails à cabeça.

De qualquer maneira o cartaz apresentado para o Parque da Cidade do Porto é mais do que suficiente para voltar a atrair uma multidão na ordem dos 25 mil fãs de música. E é disso que se trata quando se fala dos frequentadores deste festival que é o mais discreto em termos de presença de marcas patrocinadoras no recinto dando total prioridade à música dos palcos.

 

A grande novidade está na mudança do nome por força da fusão entre a Optimus e a Zon que resultou numa marca pouco amiga do naming do evento, Nos Primavera Sound não soa a nada. Apesar da mudança não devem desaparecer da paisagem verde as muitas toalhas laranjas espalhadas que se tornaram quase um símbolo do festival e que eram oferecidas pela Optimus em formato de sacola.

 

Em termos estritamente musicais e olhando para os 3 dias do cartaz a minha sugestão de visita aos vários palcos aqui fica. A não perder:

- Caetano Veloso e Kendrick Lamar, Sky Ferreira, Haim e Jagwar Ma, no dia 1.

- Warpaint, Pixies e Mogwai, Midlake e Trentmoller, Television, Pond, Godspeed You! Black Emperor e Shellac, Darkside e Todd Terje, no dia 2.

- Neutral Milk Hotel, The National e ! ! ! , Lee Ranaldo and The Dust, John Grant e St. Vincent, Charles Bradley, Slint e Ty Segall, Dum Dum Girls, Cloud Nothings e Pional, no dia 3.

 

Uns são mais urgentes que outros, obviamente, isto agora é tudo muito subjectivo. Deixo estas pistas mas devem seguir sempre o vosso instinto.

 

Um dos maiores selos de qualidade deste evento está na área de alimentação. Não é mais do mesmo do que temos noutros festivais. Há iguarias locais vendidas pelas casas típicas que se deslocam para o recinto. Diria que deviam experimentar um pouco de tudo durante os 3 dias mas garanto que não podem perder uma bifana bem picante na Conga nem uma sandes de pernil da Casa Guedes.

Fora do recinto e durante o dia é aconselhável um passeio pela bela baixa portuense e uma visita ao Gazela na Batalha para provar os melhores cachorrinhos do mundo com um fino.

Divirtam-se, encham-se de música e cuidado com a linha.

 

Recordem aqui as duas edições anteriores do Primavera Sound no Porto.

Optimus Primavera Sound, dia 3: Savages In The Sky

 

O último dia de festival foi o menos entusiasmante, musicalmente falando, apesar de algumas passagens memoráveis assinadas pelos Explosions in The Sky, Dinosaur Jr., Liars, White Fence, Daughn Gibson e, especialmente, Savages.

O Optimus Primavera Sound conseguiu crescer sustentadamente, melhorou as condições no recinto, recebeu cerca de 75 mil pessoas nesta segunda edição - números da organização - manteve o excelente ambiente num espaço que se apresentou sempre limpo, continua a cimentar uma relação de qualidade musical com conforto para quem visita o evento construindo uma imagem de marca que o diferencia de todos os outros festivais por cá. Depois da grande enchente do segundo dia, os nomes em cartaz para o derradeiro dia não convenciam tanto e daí termos sentido muito menos apertos entre concertos.

 

A terceira edição do Optimus Primavera Sound já tem datas confirmadas: 5, 6 e 7 de Junho contando com os norte-americanos Neutral Milk Hotel como primeira banda confirmada.

A organização deixou a fasquia muito alta com o excelente cartaz do ano de estreia que não conseguiu manter este ano. Sentiram-se muitas quebras entre concertos quando no ano passado faltava tempo para conseguir apanhar tudo de bom que estava a acontecer. Nesta edição passámos pelos quatro palcos e apanhámos algumas bandas que não justificavam o crédito do Primavera.

 

Também a nível de cabeças de cartaz, este último dia apresentava nomes sonantes mas mais ao nível teórico do que prático. Prova disso mesmo, os My Bloody Valentine, nome maior quando se fala de shoegaze, barulho do bom ao serviço do rock quando os anos 80 já olhavam para a década seguinte. O disco «Isn´t Anything» de 1988 é um marco que ainda hoje influência muito boa gente mas ver os seus autores em palco em 2013 tem o mesmo efeito que chegar ao Porto e olhar para a Torre dos Clérigos: é histórico, monumental mas não acontece mais nada. Serve para dizer: «ok, já vi os MBV ao vivo.

 

Tudo bem revisto chegamos à conclusão que levamos saudades das Savages, a banda certa à hora certa na tenda Pitchfork bem lideradas pela carismática Jehnny Beth. Defenderam com convicção um dos grandes discos deste ano, «Silence Yourself», e vemos ali sombras nada incomodativas de Joy Division. Grande concerto a pedir urgente regresso em nome próprio.

 

No palco ATP vimos o natural triunfo dos PAUS; outra coisa não seria de esperar depois da bem sucedida passagem por Barcelona.

Os The Sea and Cake pareceram perdidos em tão amplo espaço mas contaram com uns quantos apreciadores bem na frente da plateia, e os californianos White Fence foram a banda revelação assimilando com personalidade a pesada herança de clássicos do rock dos anos 60 facção Velvet Undergound.

 

No espaço Pitchfork elegemos Daughn Gibson como nome a fixar pelo bom concerto conseguido a chamar a atençao para «All Hell», disco editado no ano passado.

Outra passagem triunfante pelo Parque da Cidade do Porto foi o dos Liars no palco Super Bock com um concerto que simboliza tudo o que se espera musicalmente deste evento, imprevisibilidade, rock com várias direcções e uma entrega que prende muito público na encosta.

A sequência perfeita aconteceu no palco ao lado imediatamente a seguir ao fim dos Liars, os Explosions in The Sky entraram simpáticos a falar português e atacaram com a sua armada de guitarras ora frenética, ora calma, sem restrições conseguindo grandes momentos instrumentais na amena noite portuense.

 

Este ano não houve chuva a atrapalhar, o frio só incomodou na primeira noite, daí o recinto registar muitos resistentes madrugada dentro. Muitos se aventuraram no som bruto dos Fucked Up, outros preferiram a zona de restauração para descansar, comer as últimas iguarias e fazer já um balanço que unanimemente é positivo.

 

João Gonçalves

in Disco Digital

Optimus Primavera Sound, dia 2: Anos 90 Blur medidos

 

Dia histórico no Parque da Cidade da Porto, o Optimus Primavera Sound viveu a madrugada mais intensa e emotiva da sua curta vida com a celebração de vida dos Blur perante a maior enchente que já vimos no recinto. Claro que houve muito mais para contar mas este será para sempre recordado como o dia de Damon Albarn e companheiros no Porto.

 

Neste segundo dia cedo se percebe que a afluência ao recinto ia ser mais concorrida, logo pela zona de restauração é visivel a enchente. Não é demais repetir o já dissemos no primeiro dia, este é o festival com melhor oferta gastronómica que conhecemos.

 

Já com os quatro palcos a carburar a toda a força o circuito pedonal mostra toda a beleza natural do recinto verde, encosta abaixo, encosta acima, ouvimos várias conversas que confirmam a mesma teoria, veio tudo com o objectivo maior de ver os Blur. Sem mais demoras vamos então directos ao assunto.

 

Ao fim da primeira hora e meia do mês Junho Albarn, Coxon, James e Rowntree entram em palco e logo se percebe que só uma catástrofe natural ia evitar que o concerto não fosse um sucesso. Avisados pela má experiência da véspera com o som de Nick Cave & The Bad Seeds em que o vento frequentemente nos levava o som de palco para longe, apostámos em descer a encosta para assistirmos ao concerto bem perto do palco. Opção acertada, ouvimos na perfeição todas as secções de sopros e coros ao contrário de quem ficou mais longe.

Damon Albarn e Graham Coxon parecem estar a desfrutar verdadeiramente deste regresso, sem manifestações exageradas mas com a postura certa de quem sabe a importância que a sua música tem para tantos fãs, os Blur criam um elo de cumplicidade perfeito com a plateia. Para quem esteve atento ao alinhamento da passagem por Barcelona não ficou surpreendido com o desfile de clássicos, mesmo porque não se desviaram uma única música em relação ao que apresentaram na manga catalã do Primavera. «Girls & Boys» no arranque deixou tudo num estado graça que não mais terminou. Uma viagem à britpop dos anos 90 em jeito de consagração de uma carreira e de memórias colectivas festejadas a uma só voz. Damon Albarn despejou garrafas de água sobre as primeiras filas, sorriu, aventurou-se de pé nas grades da plateia, foi simpático com o público português e comandou com estilo as operações. Um dos grandes momentos deste reencontro aconteceu quando a meio do concerto se avistam dois grandes pacotes de leite fielmente reproduzidos a partir do inesquecível videoclip de «Coffe & TV» que era tocado no palco. Genial.

A ternura de «Tender», a alegria de «Country House», a genica de «Park Life», a calma de «The Universal», a recuperação de «Popscene», o encosto a Paul McCartney de «Under the Westway», tudo isto resultou num concerto memorável e previsivelmente ganho. O final frenético de «Song 2» foi, mais uma vez, abrilhantado do lado dos fãs que surpreenderam acendendo uma tocha em tons vermelhos para acompanhar aqueles pouco mais de dois minutos mágicos. Épico.

 

Depois foi a debandada geral. Nesta segunda madrugada como não se sentiu tanto frio como na véspera vimos muita gente a permanecer no recinto, enchendo a zona de restauração e a tenda do Palco Pitchfork para um divertido concerto da dupla Glass Candy. Os beats de Johnny Jewel, também alinha pelos Chromatics, contagiam a dança mas é Ida No quem supreende pela negativa no excesso de excitação traduzido em guinchos e gritos, pela positiva pela maneira descontrolada como se entregou literalmente à plateia deixando-se levar em braços deitada por cima das cabeças do público. Óptimo para recuperar da intensidade emotiva dos Blur.

 

Ainda em Maio, isto é, antes da banda mais esperada da noite houve muito para ver e descobrir.

Neko Case no palco Super Bock ao fim da tarde surpreendeu com um look despreocupado revelando a sua paixão por ... pastéis de nata! Em estreia no nosso país mostrou a força da sua voz em terrenos de folk americana e anunciou a edição de um novo disco para breve que será apresentado em Novembro em Portugal. Reencontro marcado, então.

 

Mais cedo no palco ATP, o mais escondido do Festival, os islandeses Ghostigital tiveram na assistência Damon Albarn que esteve envolvido na produção do disco «Division of Culture & Tourism». 

Também os californianos Local Natives deixaram o que contar no Porto. Soubemos que a banda veio mais cedo para o Porto e pediu dicas a jornalistas locais para passeios gastronómicos. Tiveram sorte e gostaram tanto das visitas às caves de vinho do Porto, das francesinhas e dos cachorrinhos do mítico Gazela na cidade Invicta que chegaram a dedicar um tema aos irmãos Oliveira, sendo um deles profissional da rádio pública que tem acompanhado o evento.

 

Por falar na Antena 3, ontem pelas 21h brindaram os seus ouvintes com um directo do palco Super Bock onde Michael Gira montou o habitual banzé sónico e experimental característico dos Swans. Óptimo retrato sonoro do que podemos encontrar neste festival para o resto do país sentir.

Mais atrás, no palco ATP, os Mão Morta assinam um concerto cheio de nervo e retribuem a enchente com um desfiles de clássicos de tirar as respiração e uma performance de Adolfo Luxúria Canibal a fazer esquecer o cancelamento do veterano Rodriguez.

 

No palco principal os Grizzly Bear encantaram os seus fãs com uma actuação segura e entreteram quem já estava a marcar posição para o concerto mais aguardado.

De regresso ao palco ATP deixar a nota sobre a emocionante passagem do resistente Daniel Johnston que continua a incrível luta em palco contra a sua conhecida doença. Também destaque para os renascidos Meat Puppets que provam ser muito mais do que uma mera bandeira grunge e até surpreendem com uma versão de «Sloop John B». Mas o maior destaque vai para a banda de Steve Albini, uma espécie de grupo residente dos Primaveras, que voltou a repetir a excelente actuação do ano passado. Não há Primavera sem os Shellac, isso é certo.

 

Finalmente, uma palavra para o regresso a Portugal dos Metz após dois concertos em Lisboa e Porto no inicio do ano. Na tenda Pitchfork deram uma , ainda, maior dimensão à agressividade de fuzz e feedbacks destes canadianos que editam pela Sub Pop.

Em contraste completo estiveram umas horas antes os Melody's Echo Chamber com um concerto fofinho, palavras ouvidas ao nosso lado.

 

Para a história fica a passagem dos Blur pelo Optimus Primavera Sound naquele que terá sido o dia mais concorrido dos seus cinco dias de vida.

 

João Gonçalves

in Disco Digital

 

Optimus Primavera Sound, dia 1: Blake & Cave, a dupla de sucesso

Arranque glorioso da segunda edição do Optimus Primavera Sound muito por culpa dos concertos de, por ordem crescente, Dead Can Dance, James Blake e Nick Cave & The Bad Seeds que fizeram esquecer o impiedoso frio.

A versão 2013 do Optimus Primavera Sound destaca-se desde logo no lado direito de quem entra onde as ofertas gastronómicas não encontram rival em qualquer outro festival. Um verdadeiro luxo calórico com as francesinhas do Cufra, as bifanas da Conga, os biscoitos da Ribeiro e o pernil em pão do Guedes, que ganha de longe no título de maior eterna fila durante toda a noite. E há muito mais para escolher na área de restauração que está sempre muito movimentada. Assistimos a momentos cómicos quando ingleses tentam perceber o que são francesinhas olhando admirados para a iguaria e nenhum local conseguiu explicar sem oferecer uma garfada.

 

A movimentação no recinto ainda não atingiu o auge neste primeiro dia uma vez que só há dois palcos a funcionar e estão lado a lado no fim da mesma encosta mas já vislumbrámos algumas daquelas personagens que caracterizam este festival. Muitos britânicos de calções, alguns de T-shirts indiferentes ao frio e muitos rendidos aos elegantes copos de vinho (custam 1 euro sem vinho) sempre recarregados. Um óptimo desígnio que conhecemos do ano passado e que se vai repetir seguramente este ano.

 

No que diz respeito aos palcos comecemos pelo concerto que concentrou a maior multidão da noite. Nick Cave & The Bad Seeds trouxe consigo o novo disco «Push The Sky Away» mas recorreu a clássicos como «Red Right Hand», «The Weeping Song», «Jack The Riper» e «Tupelo» - uma sequência real - para tornar este reencontro com os fãs portugueses ainda mais inesquecível. Nick Cave continua a ser um figura de topo no imaginário rock´n´roll com uma postura felina e agressiva em palco acabando muitas vezes a cantar literalmente em cima da plateia.

É de uma entrega contagiante e as presenças de Barry Adamson ou Warren Ellis, que tanto brilhou aqui no ano passado, numa segunda linha ocupados nos seus instrumentos ajudam a transmitir um quadro lendário para quem assiste. Entra directo para o top de melhores concertos do festival deixando a fasquia bem alta.

 

A grande debandada rumo à saída que se viu logo após o final do concerto do australiano significava que a maioria do público tinha vindo para ver Nick Cave e que despreza ou desconhece o poder da música de James Blake.

Antes disso os Deerhunter confirmaram em palco o bom momento de inspiração que mostram no recente disco «Monomania» sem esquecerem «Halcyon Digest», álbum que fez furor em 2010. Os norte-americanos convenceram e foram aprovados pelos muitos resistentes ao frio e ao cansaço.

James Blake pelas 3 da manhã é um figura incrível a aparecer nos ecrãs que ladeiam o palco, ar de menino bem comportado e expressões tranquilas de quem está concentrado na sua música encantadora. Ouvimos ao nosso lado alguém dizer que o timbre da voz marca toda a diferença, não ultrapassa os limites aceitáveis de um Antony Hegarty, por exemplo, e mantém-se no domínio do fascinante. Já vimos James Blake meio perdido num palco secundário do Alive, já o vimos intimista no Tivoli de Lisboa, agora encontramos o artista no seu auge, seguro e com um reportório forte que resulta num alinhamento convincente. Podia ir para palco com o seu laptop e cantar por cima de camadas instrumentais pré-gravadas mas prefere uma experiência mais orgânica rodeando-se de bons músicos que dão vida a «Digital Lions», «To The Last» ou «Limit To Your Love» com classe. Juntamente com Nick Cave, James Blake assinou o melhor concerto do primeiro dia.

 

Antes os Dead Can Dance não desiludiram ninguém, e havia muita gente para os ver, mas facilmente se imagina temas como «Children of the Sun», «Opium» ou «Amnesia» em local mais recatado e intimista. Quem conseguiu fixar-se na frente do palco e entrar na narcótica viagem comandada superiormente por Brendan Perry e a imperturbável Lisa Gerrard ficou a ganhar uma experiência histórica com passagem pelos anos 80 e 90. Justificaram o culto.

 

Menos brilhantes estiveram as manas Deal que vieram mostrar o quanto vale ainda «Last Splash», disco com 20 anos e que é mais conhecido como o disco onde está «Cannonball», um tema que quando é tocado obtém a seguinte reacção: «Ah, isto é das Breeders. Grande malha». Claro que o disco vale mais do que isso mas nem o entusiasmo em palco foi muito nem a reacção na plateia puxava por mais. Ficou o momento simbólico.

 

Hoje há mais e maior oferta. E frio, venham agasalhados.

 

João Gonçalves

in Disco Digital

 

Rumo ao Norte

 

Começa hoje o Optimus Primavera Sound 2013 e o Grandes Sons muda-se para norte com todo o gosto. Reportagens para acompanhar no Disco Digital e aqui.

 

Horários para hoje

 

PALCO OPTIMUS      
James Blake (02h15)  
Nick Cave & The Bad Seeds (23h35)  
The Breeders performing Last Splash (21h00)  
Merchandise (18h55)  

PALCO SUPER BOCK        
Deerhunter (01h00)  
Dead Can Dance (22h10)  
Wild Nothing (19h50)  
Guadalupe Plata (18h00)  

Blur @ Primavera Sound em Barcelona por Tiago Romeu

Tiago Ferreira Romeu , amigo residente em Barcelona, conta ao Grandes Sons como viveu o encontro com os Blur no Primavera e garante que vamos gostar de os ver no Porto:



É naquele compasso de espera em que as luzes do palco estão apagadas mas os técnicos ainda não começaram a desligar as máquinas, em que há um roadie com o baixo na mão e nao sabes se está a afiná-lo para um segundo encore ou pura e só a começar arrumar para ir embora, em que quem fica à espera tem um ar demasiado crédulo mas quem se apressa a ir embora, parece, por sua vez, demasiado céptico; é naquele compasso de espera, dizia-te, que começas a duvidar. O que é que te arrebatou, o que acabaste de ver ou as tuas próprias memórias desse concerto num passado em que não chegou a acontecer? Ou que, apesar do discorrer de singles e de nenhum disco ter ficado de fora, a escolha de canções e dos momentos não tenha deixado de ser singular ou, para quem não conhecesse os alinhamentos dos anteriores espectáculos, até algo surpreendente? Ou uma banda muito mais esforçada e com alguns momentos de êxtase genuíno, com odes à lua e ao mar – com uma avassaladora "This is a Low" a terminar o alinhamento inicial – a crescer sobre a pose de certa distância cínica cultivada em anos de britpop?

 

Certo, no meio disto tudo, é essa sensação de arrebatamento diante do regresso de um grupo maior. Passados 15 anos desde o último concerto em Espanha e o primeiro concerto em solo europeu em 2013, não estranha que às 1h30 se tivesse dado a maior enchente desta edição do festival. O momento especial começou na meia hora que o antecedeu, com a multidão de milhares em espera a ser brindada com o mini-concerto surpresa dos The Wedding Present. Três canções sorrateiras no varandim da zona vip posicionada no lado direito do palco, com “there’s always something left behind” do refrão de “My favourite dress” e um “enjoy Blur!” a findar a breve actuação e a lançar as estrelas da noite, a escassos metros e 2 minutos de distância.

 

Sobre o concerto, talvez o melhor seja a conclusão que os Blur são uma banda presente que olha para o futuro e não um grupo que se reuniu para celebrar o que foi. O espectáculo mostra um grupo que retomou a carreira no ponto onde a tinha deixado em 2002 e o alinhamento demonstra isso mesmo, com um bloco central de quatro canções de "13", o último disco da banda enquanto banda. “Theme from retro” inaugurou um palco vazio de músicos e adornado com um pano de fundo sob um viaduto e blocos de edifícios difusos ao fundo, quem sabe se da paisagem sob a Westway.

 

O arranque, demolidor, foi com “Girls and Boys”, Albarn e Coxon particularmente eléctricos, excitados, num tom muito físico que prosseguiu para o excelente single perdido dos primórdios, “Popscene”, e a deliciosa “There’s no other way”. Depois, o primeiro confronto com os demónios, as primeiras hesitações numa voz já cansada, quem sabe cortada pelo frio e vento marítimo: “Bettlebum” intenso, a renovada versão de “Out of Time”, agora com Coxon, e o crescendo de "13", com “Trimm trabb”, “Caramel”, “Coffee and TV” e finalmente “Tender”, com o coro gospel composto de 4 cantores em cima do palco e dezenas de milhares abaixo deste a entoar um hino que continuou para lá da canção.

 

Com muitos ainda a entoar “I’m waiting for that feeling”, dispara “Country House” e Albarn baixa ao fosso para empoleirar-se na multidão. Começava uma espécie de terceiro tempo e depois do single de “The Great Escape”, tempo de “Parklife”, com o tema homónimo, jogging e imitação de Phil Daniels por Albarn incluídos, e as extraordinárias “End of a Century” e “This is a low” a fechar o alinhamento inicial com a mesma melancolia grandiosa que fecha o disco (se descontarmos o epílogo que a tenta disfarçar, claro).

 

Para o encore ficou reservada a nova “Under the Westway”, uma belíssima balada com Albarn ao piano, a única incursão a “Modern life is rubbish” com a vibrante “For Tomorrow” e a épica e sumptuosa “The Universal”, sopros e público a despedir o reencontro num encore de futuro, passado e presente. E teria acabado aí, esgotado e redondo, não fosse a última concessão, o último esforço, algo esmorecido, demasiado breve e a pedido, "Song 2". A velha história dos gregos e dos troianos.

 

Naquele momento, dizia-te, o tal do compasso de espera, se calhar o que arrebatou foram todas aquelas coisas e quem sabe ainda outra: a conclusão que mesmo esse travo de acto ligeiramente falhado, de fim imperfeito de concerto é, por mais que custe, tão coerente com esse grupo em constante desequilíbrio, a oscilar entre a dissecação festiva da cultura pop e a cura da ressaca ou das feridas dessa mesma festa. Ontem ficou provado que voltaram de vez e também por isso voltaram em pleno. Vais gostar, agora quando os vires no Porto.


Tiago Ferreira Romeu, o homem de confiança do Grandes Sons a viver em Barcelona.

Cartaz Primavera Sound Porto

Blur • The Breeders (performing Last Splash) • Dan Deacon • Daniel Johnston • Daughn Gibson • Dead Can Dance • Dear Telephone • Deerhunter • Degreaser • Dinosaur Jr. • Do Make Say Think • Explosions in the Sky • Fidlar • Four Tet • Foxygen • Fuck Buttons • Fucked up • Ghostigital • Glass Candy • The Glockenwise • Grizzly Bear • Guadalupe Plata • Hot Snakes • James Blake  • Julio Bashmore • L'Hereu Escampa • Liars • Local Natives • Los Planetas • The Magician • Manel • Meat Puppets • Melody's Echo Chamber • Memória de Peixe • Merchandise • Metz • My Bloody Valentine • Neko Case • Nick Cave & The Bad Seeds • Nurse with Wound • OM • Paus • Pegasys • Rodriguez • Roll the Dice • Savages • The Sea and the Cake • Shellac • Swans • Titus Andronicus • White Fence • Wild Nothing

 

 

O Festival Optimus Primavera Sound realiza-se de 30 de maio a 1 de junho de 2013, no Parque da Cidade do Porto.

 

 

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