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Grandes Sons

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Grandes Sons

Blur @ Primavera Sound em Barcelona por Tiago Romeu

Tiago Ferreira Romeu , amigo residente em Barcelona, conta ao Grandes Sons como viveu o encontro com os Blur no Primavera e garante que vamos gostar de os ver no Porto:



É naquele compasso de espera em que as luzes do palco estão apagadas mas os técnicos ainda não começaram a desligar as máquinas, em que há um roadie com o baixo na mão e nao sabes se está a afiná-lo para um segundo encore ou pura e só a começar arrumar para ir embora, em que quem fica à espera tem um ar demasiado crédulo mas quem se apressa a ir embora, parece, por sua vez, demasiado céptico; é naquele compasso de espera, dizia-te, que começas a duvidar. O que é que te arrebatou, o que acabaste de ver ou as tuas próprias memórias desse concerto num passado em que não chegou a acontecer? Ou que, apesar do discorrer de singles e de nenhum disco ter ficado de fora, a escolha de canções e dos momentos não tenha deixado de ser singular ou, para quem não conhecesse os alinhamentos dos anteriores espectáculos, até algo surpreendente? Ou uma banda muito mais esforçada e com alguns momentos de êxtase genuíno, com odes à lua e ao mar – com uma avassaladora "This is a Low" a terminar o alinhamento inicial – a crescer sobre a pose de certa distância cínica cultivada em anos de britpop?

 

Certo, no meio disto tudo, é essa sensação de arrebatamento diante do regresso de um grupo maior. Passados 15 anos desde o último concerto em Espanha e o primeiro concerto em solo europeu em 2013, não estranha que às 1h30 se tivesse dado a maior enchente desta edição do festival. O momento especial começou na meia hora que o antecedeu, com a multidão de milhares em espera a ser brindada com o mini-concerto surpresa dos The Wedding Present. Três canções sorrateiras no varandim da zona vip posicionada no lado direito do palco, com “there’s always something left behind” do refrão de “My favourite dress” e um “enjoy Blur!” a findar a breve actuação e a lançar as estrelas da noite, a escassos metros e 2 minutos de distância.

 

Sobre o concerto, talvez o melhor seja a conclusão que os Blur são uma banda presente que olha para o futuro e não um grupo que se reuniu para celebrar o que foi. O espectáculo mostra um grupo que retomou a carreira no ponto onde a tinha deixado em 2002 e o alinhamento demonstra isso mesmo, com um bloco central de quatro canções de "13", o último disco da banda enquanto banda. “Theme from retro” inaugurou um palco vazio de músicos e adornado com um pano de fundo sob um viaduto e blocos de edifícios difusos ao fundo, quem sabe se da paisagem sob a Westway.

 

O arranque, demolidor, foi com “Girls and Boys”, Albarn e Coxon particularmente eléctricos, excitados, num tom muito físico que prosseguiu para o excelente single perdido dos primórdios, “Popscene”, e a deliciosa “There’s no other way”. Depois, o primeiro confronto com os demónios, as primeiras hesitações numa voz já cansada, quem sabe cortada pelo frio e vento marítimo: “Bettlebum” intenso, a renovada versão de “Out of Time”, agora com Coxon, e o crescendo de "13", com “Trimm trabb”, “Caramel”, “Coffee and TV” e finalmente “Tender”, com o coro gospel composto de 4 cantores em cima do palco e dezenas de milhares abaixo deste a entoar um hino que continuou para lá da canção.

 

Com muitos ainda a entoar “I’m waiting for that feeling”, dispara “Country House” e Albarn baixa ao fosso para empoleirar-se na multidão. Começava uma espécie de terceiro tempo e depois do single de “The Great Escape”, tempo de “Parklife”, com o tema homónimo, jogging e imitação de Phil Daniels por Albarn incluídos, e as extraordinárias “End of a Century” e “This is a low” a fechar o alinhamento inicial com a mesma melancolia grandiosa que fecha o disco (se descontarmos o epílogo que a tenta disfarçar, claro).

 

Para o encore ficou reservada a nova “Under the Westway”, uma belíssima balada com Albarn ao piano, a única incursão a “Modern life is rubbish” com a vibrante “For Tomorrow” e a épica e sumptuosa “The Universal”, sopros e público a despedir o reencontro num encore de futuro, passado e presente. E teria acabado aí, esgotado e redondo, não fosse a última concessão, o último esforço, algo esmorecido, demasiado breve e a pedido, "Song 2". A velha história dos gregos e dos troianos.

 

Naquele momento, dizia-te, o tal do compasso de espera, se calhar o que arrebatou foram todas aquelas coisas e quem sabe ainda outra: a conclusão que mesmo esse travo de acto ligeiramente falhado, de fim imperfeito de concerto é, por mais que custe, tão coerente com esse grupo em constante desequilíbrio, a oscilar entre a dissecação festiva da cultura pop e a cura da ressaca ou das feridas dessa mesma festa. Ontem ficou provado que voltaram de vez e também por isso voltaram em pleno. Vais gostar, agora quando os vires no Porto.


Tiago Ferreira Romeu, o homem de confiança do Grandes Sons a viver em Barcelona.

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