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Grandes Sons

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Grandes Sons

Nuno Calado no Primavera Sound em Barcelona

Quando há uns meses o João me perguntou se queria fazer um texto sobre o que tinha visto nos Them Crooked Vultures em Berlim, pensei e aceitei apesar de a escrita não ser o meu meio favorito de comunicação. O patrão deste espaço deve ter ficado surpreso quando um dia lhe disse se poderia escrever sobre o concerto acústico de Mark Lanegan em Madrid e sobre o Primavera Sound em Barcelona. A ideia inicial era fazer um report dos concertos, mas como não me fiz acompanhar de computador o tempo foi passando e de alguma forma a ideia de reportar deixa de fazer sentido pela perda de actualidade. Estas duas viagens fizeram no entanto pensar em algumas situações que podem ser objecto de reflexão para quem gosta de música e se preocupa com estas questões.

 

Maio foi um mês bem activo em termos de concertos para mim em Portugal e em Espanha.  A primeira paragem para concertos fora de portas foi em Madrid na sala Joy Eslava para ver Mark Lanegan acustic show. Apesar de ter uma longa carreira a solo ou com os Screaming Trees, com os Queens of the Stone Age, com Isobel Campbell , com os Soulsavers, com quem o tinha visto em Setembro em New York,ou em outras tantas participações das quais podemos destacar as mais recentes com dois projectos electrónicos como os Bomb The Bass ou os UNKLE.

Dono de uma das melhores vozes que conheço. Não acredito que um concerto seu em Lisboa tivesse uma sala praticamente esgotada com cerca de mil e trezentas pessoas que sonharam com o mundo obscuro de Lanegan... No final foram cerca de 15 minutos de ruído de toda a espécie para tentar convencer o artista a fazer mais um encore, poucos foram os que desistiram mesmo depois das cortinas terem caído e das luzes terem sido acesas. O contingente português neste espetáculo era muito reduzido não mais que uma mão cheia. Saí da sala mais uma vez com a ideia de que o publico espanhol é muito bom e que esteve ao nível do concerto.

 

A segunda incursão por terras espanholas não foi para ver o Messi a jogar mas foi na mesma a Barcelona para ver um cartaz de luxo para quem gosta da cena alternativa: o Festival Primavera Sound.  Um auditório, duas tendas/stands para showcases e seis palcos.  Este é o típico festival onde se tem de ter o programa na mão e uns sapatos confortáveis nos pés.  Os concertos são muitos e muitos nomes obrigatórios de ver ou pelo menos espreitar, já que muitas vezes é impossível ver tudo, e escutar mais que 3 ou 4 canções de cada actuação. Os seis palcos principais do Primavera Sound estão agrupados em dois sectores e por estranho que pareça não interferem uns com os outros, logo é possível ver e ouvir em perfeitas condições cada concerto e nenhum musico se queixou do barulho que vinha do palco concorrente, por cá já vimos pelo menos um abandonar a actuação a meio por falta de condições. O publico circula sempre mas há milhares a ver cada concerto, é claro que nem sempre são largos milhares e vai havendo diferenças entre uns Condo Fucks que tinham quase lotação esgotada do seu palco para um King Khan que estava quase sozinho. Da mesma forma que os Shellac que tocaram na ZDB em Lisboa tinham mais de 7 mil pessoas á sua frente ou os Les Savy Fav que fazem a festa em qualquer lugar do mundo.

Os The XX tinham largos milhares mais que os Sunny Day Real Estate no seu primeiro concerto europeu. Enquanto no palco principal era quase difícil perceber quem poderia ganhar em termos de lotação e de nomes tão diferentes como The Fall, Superchunk, Pavement, New Pornographers, Wilco, Spoon, Pixies, Florence + The Machine, Charlatans ou Pet Shop Boys.

 

Com o numero de palcos e a falta de interferência entre eles começamos perceber as diferenças entre este festival e a maioria dos Festivais por cá. Outra das diferenças é que um evento que tem a oferta que o Primavera tem não precisa de ter palcos e som para 50 mil pessoas pois em frente ao palco principal não estariam mais de 25 mil e era essa a ideia de quem desenha este evento. Há muito para ver e com qualidade. Outra diferença notável é que se pode circular sem tropeçar nos buracos e na irregularidade do piso com gravilha, areia ou buracos, quem estiver preso por exemplo numa cadeira de rodas poderá ter acesso a todos os palcos porque apesar de existirem escadas existem igualmente percursos alternativos e adaptados.  As casas de banho são bem menos que as necessárias, mas não parecia que ninguém estivesse muito importado com isso.

 

Há mais dois pontos muito importantes que poderiam ser levados em conta por quem faz este tipo de eventos por cá quando entramos no recinto temos a noção de que está tudo arrumado, os stands, os locais para comer e beber tudo colocado de forma a que não interfira com a circulação dos utentes. Os patrocinadores estão visíveis, mas não bombardeiam nem ferem a vista de quem chega ou está, não existe aquele ruído de quando se olha para qualquer lado, não se vê 5 ou 6 marcas parecendo um festa da paróquia ou uma queima das fitas. Dá para perceber que quem manda no evento não são os patrocínios mas que há uma parceria e uma convivência salutar entre o lado artístico e o de quem investe o seu dinheiro esperando que a sua marca tenha exposição com classe. Por último parece-me que os organizadores do Primavera nunca perderam de vista o seu objectivo principal que é simplesmente ter um festival de musica respeitado no meio. O que quero dizer com isto é que o único ruído que se tem dentro do recinto é o que sai das colunas dos PA’s disponíveis. A ausência de fun zones barulhentas é um verdadeiro alivio que me levou a pensar que há por cá muita gente com saudades da feira popular. Para bem da nação é favor arranjar uma rapidamente para nos podermos manter focados.

 

Ao ver os Shellac , os Sunny Day Real Estate, Superchunk, os Wilco ou Mark Lanegan umas semanas antes, há uma ideia que assalta o espírito; o mundo da musica é provavelmente um dos mais injustos, nem sempre o talento é proporcional com o sucesso e por outro lado há o desnível de quantidade de gente disponível para ver bandas de um pais para o outro no caso Portugal/Espanha. Na verdade qualquer destes artistas teria dificuldades em ter provavelmente mais de 500 pessoas a vê-los. Não é ignorância ou falta de vontade é também culpa politicas de conteúdos em alguns dos media.  Muitas vezes damos o exemplo de Espanha na defesa dos valores e daquilo que é espanhol como algo a seguir por cá nomeadamente em relação á musica, na verdade eles consomem muito do que é deles, mas não estão alheados do resto do mundo. Os espanhóis conhecem e gostam de bandas novas, de meia idade e antigas de áreas alternativas muito por causa da existência de programas de tv dessa área e de uma rádio de cobertura nacional como a rádio 3 que tem uma programação invejável como não existe em nenhuma com o mesmo tipo de cobertura cá no burgo.

E isto dá que pensar.

 

Nuno Calado (Antena3)

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